Maio de 2016

Crónicas da Dona Clô

 

Há muitos anos atrás, vejam lá, quase 25, conheci uma senhora magnifica, chamava-se Clotilde e tinha 8 filhos e uns 22 ou 23 netos, até já tinha bisnetos … Tinha 72 anos e era um amor de pessoa… Tratou de todos os filhos e da maior parte dos netos, foi “mãe” de umas 20 pessoas, tratou sempre de todos como se fossem mesmo seus filhos, sem distinguir amores, sem distinguir graus de parentesco.. Lembro-me que chamava filho ou filha a todos eles, e olhem que eram mesmo muitos, como se costuma dizer era uma casa cheia..

Ela, feliz ou infelizmente, casou com um homem, chamado António, que bebia demais, como diziam os filhos: “O meu pai apanhou uma bebedeira na vida, só nunca a curou”, batia-lhe , batia aos filhos. Faleceu muito cedo, penso que tenha sido um alivio para alguns, pois já tinham sofrido tanto nas mãos dele, aliás a dona Clô muitas vezes quando ele já estava um pouco alegre, punha-se na frente dos filhos para que ele batesse nela e não neles… É triste , mas é verdade. O António só tinha um amor incalculável pela Maria João (a neta mais velha) e pela Ana, até então a neta mais nova. Ninguém podia falar um pouco mais áspero com as meninas, que o seu lado protetor vinha logo ao de cima com o seu: “Deixa estar a menina”

Vou agora falar um pouco de mim, eu sou a Ângela, a neta mais nova desta magnifica senhora, a caçula da família, tenho três irmãos e nós vivemos grande parte das nossas vidas com ela, os manos Pedro e Sérgio até viviam na casa dela e eu e a minha irmã Ana na casa do lado com os pais.

Com a dona Clô dava para se ver amor em tudo o que ela fazia, em cada refeição que ela preparava, em cada café que ela fazia com tanto carinho, pode parecer estranho, mas ainda hoje eu sinto na boca o sabor do café dela que ninguém, nunca mais, foi capaz de fazer igual, falta o amor que ela punha em tudo. Ela acordava bem cedinho para ir a loja buscar o pão porque o Pedro, depois de casar com a Cristina, vinha de gaia todos os dias as 07h da manhã tomar o cafezinho da avó e o pão com manteiga, até esse sabia diferente do que se come agora. Tenho noção que o café era um pretexto para lá irmos a casa porque sabíamos que ela já era velhinha e que, com muita pena de todos nós não iria durar muito mais tempo.

Fomos todos criados com muito amor, nunca nos faltou comida na mesa, apesar de não haver fartura, nunca, mas nunca nos faltou amor, os pais trabalhavam muito para nos proporcionar o necessário e ela ficava com a parte do amor e do carinho, ela dava tudo por tudo! Não tinha muito, mas tinha o amor que nós precisávamos, o carinho sem igual, as palavras mais reconfortantes do mundo, sabia sempre o que dizer, tratava-nos como filhos, como se fossemos dela, como os filhos dela.

Em tantos anos que vivemos lá, lado a lado com ela, nunca a vi doente, com uma constipação ou com dores seja do que for, dizem que as pessoas de antigamente eram mais rijas e que nós hoje em dia por sermos tão apaparicados apanhamos tudo e mais alguma coisa e as vezes com uma gripezinha de nada parece que o mundo vai acabar, as pessoas antigas mal tinham acesso a medicamentos e vacinas e estavam sempre la “para as curvas”, nunca vi a dona Clô a chorar, imagino que chorasse mas certamente não o fazia na nossa frente para não nos preocupar…

Todos os meses, no primeiro domingo, ela ia a Fátima, sempre foi muito devota a Deus e todos os dias antes de dormir rezava as suas orações e pedia a Deus saúde para o novo dia, no princípio ela levava com ela a Ana, mas depois ela começou a ficar crescida e comecei a ir eu, claro que íamos em oração, mas eu sinceramente não sabia muito bem as orações que se faziam na camioneta e as músicas que se cantavam, mas eu ia e ela ficava muito feliz por alguém querer ir com ela… Ia ela, eu, a Tiota (que é uma das filhas dela, ainda hoje vai) a Cristina e muitas vezes a minha sobrinha Isabel ia também, ela era bebe não percebia mas a Cris fazia questão de levá-la a ver o santuário de Nossa Senhora de Fátima, agora imaginem o que é ter a camioneta lá ao pé de casa as 04h30 da manhã e ela não deixar a comida pronta do dia anterior, não, ela fazia questão de se levantar bem cedo  para preparar tudo, e não eram umas sandes, porque “de sandes ninguém se alimenta”, como ela dizia, era frango estofado com batatas e arroz, ou rojões com batata e arroz, sempre assim, com muito amor, era sempre o seu ingrediente secreto.. Íamos carregadas mas ela não deixava ninguém passar fome, e claro como “antes de repartir dá para todos” , sempre que alguém lhe dissesse: “oh sra Clotilde cheira tão bem”, ela mandava logo a pessoa sentar lá ao pé de nós, talvez la na opinião dela se dizem que cheira bem é porque não trouxeram grande coisa para almoçar então têm fome, chegava sempre para todos e ninguém ficava com fome… As idas a Fátima eram sempre emocionantes, porque víamos amor na cara das pessoas, devoção, hoje em dia já não se vê tanto…

Quando eu tinha 12 ou 13 anos, andava no 7ºano na escola, nós durante as férias tínhamos mudado de casa e já não vivíamos la ao pé da avó, mas ela continuava sempre a fazer o cafezinho para o Pedro que na mesma todos os dias lá ia de manha. Eu ia lá almoçar todos os dias, e digo-vos, nunca em parte nenhuma um ovo e batatas fritas me sabiam tão bem como ali, feito por ela… Um dia, como outro qualquer eu saí da escola as 12h40 e fui para lá, como fazia todos ou quase todos os dias… Bati, bati, bati a porta e ninguém atendia, pedi a uma vizinha, a Mariazinha, para telefonar ao meu irmão que tinha chave de lá para vir abrir a porta que eu estava preocupada, passado pouco tempo ele chegou e abriu a porta, eu já estava desesperada e subi aquelas escadas a correr como nunca tinha feito, abri a porta do quarto e ela estava lá, deitada no chão quase debaixo da cama, não aguentei, comecei a chorar e saí dali pra não ver mais a minha avó naquela situação, ficou o mano a tratar de tudo e chamou a ambulância, a nossa velhinha tinha tido um AVC, ficou uns dias internada, não me deixavam lá ir… Depois foi para casa da tia Fátima, acamada, uma pessoa que sempre tratou da vida dela sozinha acamada, sem poder fazer nada, sem se poder mexer, custava tanto vê-la lá… Mesmo assim, durou mais 5 anos… No início de 2010, aconteceu qualquer coisa que eu nunca soube o quê e ela teve que ser internada no HSJ, algum tempo depois não aguentou mais o sofrimento e foi para a beira do seu amado Deus. Lembro-me como se fosse hoje, estava em casa, à noite, e um primo meu ligou-me, uma conversa muito estranha e a dada altura diz-me: “Amanhã vais à capela?” e eu, intrigada, perguntei: “À capela fazer o quê?? Estás parvo??” , ele desligou-me o telemóvel na cara, naquele momento soube que aconteceu alguma coisa, tornei a ligar-lhe e ele só me disse: “Ah esquece, não é nada.” , eu disse-lhe: “Se não fosse nada tu não perguntavas se ia à capela, é o que eu estou a pensar?? A avó morreu?” e quando ele me desligou novamente a chamada eu soube que tinha realmente sido isso. Caiu-me tudo! Posso dizer que o dia 25 de março de 2010 foi o pior dia da minha vida, perdi o meu pilar, o maior amor da minha vida. Apesar de acreditar que aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem ante de nós, custa, custa muito, estarmos habituados a viver com uma pessoa e essa pessoa se tornar importante ao ponto de a amarmos como a nós mesmos, e depois essa pessoa partir… Para mim foi tirarem-me o chão, tirarem-me o fôlego, apagarem metade de mim, da minha história.

Em 2011, eu tinha 19 anos, arranjei um namorado, apesar das discussões eu sei que ele está comigo, que atura todas as minhas “pancas”, que comemora comigo as vitórias e que chora comigo nas derrotas. Que, em 2014, me deu o maior amor do mundo, me deu a verdadeira razão da minha existência, o nosso filho, Cristiano, um menino Jesus que nasceu mesmo no dia dele, 25 de dezembro. Nessa data eu descobri uma coisa, quando tudo parece perdido aparece uma luz no fundo do túnel, ele é a minha luz, o meu porto de abrigo, o menino dos meus olhos.

Hoje, em 2016, eu só sinto muito que ela não tenha conhecido o amor que iria ocupar um pouquinho do vazio que ela deixou no meu coração, mas eu sei que ela está la no céu, ao pé de Deus a olhar por nós, todos os dias, dia após dia, pelo menos, eu peço isso todos os dias.

Que eu possa ter sempre a certeza que me ama vó, pois eu sei que a avó vai ter sempre a certeza que eu a amo! Olhe por nós, olhe pelo meu menino, como se fosse seu. Tome conta dele sempre que eu não saiba fazê-lo, não deixe, nunca, que me faltem as forças para ama-lo, para cuidar dele, eu vou sempre tentar que ele conheça um pouquinho de si, vou contar-lhe as suas histórias e vou querer que ele saiba o que sofreu para olhar por nós todos estes anos, esteja descansada que ele vai saber que as coisas que a mamã faz por ele hoje, ela aprendeu com a Vibó Clotilde!

Esteja onde estiver não deixe que me faltem as forças, por ele vó, pelo nosso menino !

Obrigada por tudo! Obrigada pelo amor sem igual que sempre nos demonstrou e que nos tornou pessoas melhores !

Clotilde, para mim tu não morreste, conquistaste a tua liberdade!

26.06.1920-25.03.2010 – 90 anos a ensinar que o amor vale sempre a pena quando é verdadeiro.

Obrigada !

Esta é a Dona Clô, só a pessoa mais doce e mais amorosa que eu conheci em toda a minha vida ! <3